quarta-feira, 13 de fevereiro de 2013

Bebendo sartrianamente



''Tudo me é lícito, mas nem tudo me convém'' Paulo de Tarso

Nada ponderadas, as opiniões sempre insistem em se dispor diametralmente opostas. É assim que, se de um lado, há os que advogam contra o consumo de bebidas de nossa parte, estudantes de medicina; de outro, há os que, também de nossa parte, brindam a libertinagem sem qualquer consciência de responsabilização. Dos primeiros, sempre ouvi que semelhante comportamento etilista não é coisa de futuros médicos; assim como, dos segundos, sempre ouvi que, se tanto não bebessem, não se aproveitaria a vida universitária. Ora, como se não existisse por debaixo do jaleco um homem tão dionísico como são todos os outros, e como não se cobrasse a responsabilidade num sofrimento alheio, ambos pecam pelos seus excessos. Pois que a bebida, como todo objeto inanimado,realmente nada tem de má em si. Em torno dela reúnem-se os amigos, fluem as conversas, relacionam-se os amantes. Através dela podemos enfim purgar nosso estresse, que é grande, aliás. Mas, antes que tomem isso por uma apologia disfarçada ao álcool, quero dizer que não milito para nenhum desses dois partidos. Absolutamente, não comungo da ideia de endeusamento médico que subjaz no argumento de que nossa classe deva se privar dos prazeres humanos, muito menos acho que me chafurdar na sarjeta, depois de um porre, seja prazeroso. Ao contrário, em uníssono com existencialismo sartriano, digo que a ´´liberdade não é fazer o que se quer, mas querer o que se faz´´. Façamos, pois nossos festejos, com todo o direito de desfrutar que temos, mas os façamos com a certeza de que a vida que escolhemos demanda responsabilidades com as quais queremos, por nós mesmos, arcar.

terça-feira, 8 de janeiro de 2013

Ridiculamente séptico





Quem muito anda pela Avenida Alfredo Balena, na área hospitalar de Belo Horizonte, não pode deixar de notar certa brancura nas ruas. Não pela limpeza do local, obviamente. Longe disso, sabemos que o centro belorizontino é uma poluição só. Mas a tal brancura está, isso sim, na vestimenta das pessoas, que estranhamente andam todas de branco. E não simplesmente branco, a exemplo de camisetas e blusas brancas, como seria de se esperar nesse tempo de calor tão causticante. Não, para tanto semelhante roupagem - hipotetizo eu - teria pouca área refletiva, afinal não tem manga nem se estende aos joelhos. Assim é que a moda na Av. Alfredo Balena são nada menos que os jalecos, os quais compreensivamente atendem aos supostos requisitos de reflexão: têm manga e se estendem aos joelhos. Além do mais, pense só, são utensílios muito versáteis, pois que podem servir de capa em situações de chuva. E – ah! - também eles podem se transformar em perfeitos lenços babadores, ideais para se proteger dos típicos espirros de sugos macarronences durante o almoço. Entrentato, tantos atributos por si só - hipotetizo novamente - não justificariam todo esse moby ariel, afinal também existem, como se deve ser, roupas frescas para o calor, capa de chuva para a chuva, e lenços babadores para almoço. Pois bem, deve existir então coisa a mais que justifique essa estranha situação. E, pensando no universo da moda, que algo a mais seria esse senão a vaidade...vaidade essa que, convenhamos, não está em preservar a autoimagem do ridículo.

quinta-feira, 4 de outubro de 2012

Romantismo realista

DAS UTOPIAS
Se as coisas são inatingíveis... ora!
Não é motivo para não querê-las...
Que tristes os caminhos se não fora
A mágica presença das estrelas!
Mario Quintana - Espelho Mágico

Acredito, ou quero acreditar, que todos quantos são os estudantes de medicina tiveram na gênese de seu desejo de formação um bocado de altruísmo. Ainda que secundária ou subjacente, fato é que pulsa em cada um de nós uma vontade de curar, de ajudar o próximo no seu mal momento de saúde. E isso eu o sei porque comigo não foi diferente. Aliás, lembro-me que foi justamente esse sentimento que mais me motivou nos desalentadores tempos de cursinho pré-vestibular. Mas, agora, cá na Faculdade de Medicina, percebo que tão logo vamos nos acostumando aos seus corredores gélidos, esse quê de romantismo como que nos esvai dos corações, drenado imperceptivelmente por uma força imperiosa de urgência e de tecnicismo. E, o que é pior, quando nos damos conta disso é tarde o suficiente para nos estranharmos com nós mesmos, em uma autocrítica que, para o bem ou para o mal, tenta se inocentar na figura da inexorável universidade e do seu modo anacrônico de ensinar as coisas. Mas, bem, será que realmente nossos caminhos estão traçados pelo determinismo dessa pedagogia canhestra? Será que realmente não dá para fazer diferente, todos temos de matar o idealismo para, nesse mundo, sermos médicos? Penso que não. Isso seria um desperdício. Isso seria, particularmente, um suicídio. E é por isso que procuro maneiras de resignificar a situação, de modo a poder, quem sabe, abstrair dessa realidade pungente uma possibilidade melhor, mas nem por isso menos factível, afinal não cabe ingenuidade nesse meio voraz. Assim, não se trata, aqui, de tentar mudar o que não está ao nosso alcance, sabemos perfeitamente que as decisões últimas sobre o modus operandi da faculdade cabem aos senhores reitores e ao corpo docente, que um dia quiçá chegaram à conclusão e à ação mais acertada. Mas, ao contrário, enquanto o futuro não chega, tratar de mudar prontamente o que está ao nosso alcance, que é, enfim, o nossa próprio modo de pensar à revelia do que persistentemente nos inculcam. Ou seja, lucidez! Nesse ponto, imagino que vocês devem estar ansiosamente se perguntando, como? Ora, simples: é o velho e bom ditado, unir o útil ao agradável. Se a promiscuidade por créditos foi instaurada, que busquemos ao menos nos dar ao que temos mais prazer. E qual não é o prazer dum paciente grato por uma simples atenção a mais, duma mãe primeiramente desesperada que se acalenta pelo apaziguamento médico, dum velho senhor que tem sua carência saciada por um dedo de proza. E para que essas experiências sejam possíveis, e também seja possível fruir delas, é preciso que tenhamos em nós o humanismo. E se o humanismo não sobrevém de onde devia brotar, é hora de buscá-lo por nossa conta e risco. E ele, por sorte, está em toda parte, basta ter olhos para ver. Quantas são as entidades assistenciais que podemos trabalhar como voluntários; quantos são os livros, já empoeirados, que podemos locar para nos espelharmos em exemplos louváveis; quantas são as vias de escape nas artes em geral para nos comover o espírito, quantos são os pacientes carentes de um ouvido mais acalentador que aguardam somente a iniciativa médica...Mas, esse é o momento que as coisas descambam para o velho retruque: não há tempo e espaço para semelhantes coisas, os estudos nos absorvem! Ora, minha tréplica: ambas as coisas não são mutuamente excludentes. Muito pelo contrário, há entre eles certa retroalimentação positiva. Afinal que fim teria seus estudos sem um objetivo de humanismo, e que meio teria seu humanismo se a técnica não lhe alicerçasse? Além do mais, inclusive para os fins pragmáticos de bem estar, garantidos obviamente pelo poder do capital, a prática humanista também é válida, pois que a clientela de pacientes se faz de boca a boca, que será tanto melhor quanto mais humanamente se cativar as pessoas. Então, o que nos fica é a seguinte analogia: não é preciso viver nas nuvens para sonhar, podemos continuar com os pés no chão e simplesmente olhar para cima.